
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Marionete

Rebelde
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Dedo na ferida

como minha mãe.
Mas te dei um filho
A criança não podia ser mais bonita
mais formosa
mais parecida contigo.
Pai me ajuda a criar nosso filho juntos.
Pai este filho é teu...
Meu marido só
Tens obrigação comigo...
Assumiste todos os filhos
Quer dizer que serei a única mãe solteira?
Vai me abandonar grávida?
Pai
como assim não podemos?
Podemos sim.
Sem que ninguém saiba.
Podemos sempre
às escondidas
muito bem disfarçados.
Ah, não?
Então quero que tu pague as fraldas.
Quero que tu pague a escolinha.
Quero que tu pague o carro.
E pague por minha mãe.
Quero que tu pague o diabo
que te farei amassar o pão.
Quero apenas que tu pague.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Tende piedade de nós!

Cordero de Deus...
A Suprema Corte não dorme
redige.
A Suprema Corte não come
lê
A Suprema Corte compara
Eruditos proclamam
a inauguração de suas interpretações particulares.
E o mofo vai cobrindo Têmis
que ao lado chora por desuso
e passa a temer a todos.
Cordero de Deus...
Lágrimas não prescrevem.
Dor é qualquer coisa irrenunciável.
Hediondo é sempre trágico.
Não me obriguem...
Não me obriguem chover no molhado.
Como ficam as almas que reivindicam um corpo?
Famílias assoam injustiças
em um tapete grande, vermelho latino.
Conveniência – teu nome é Direito
Sem título para não comprometer

Sente o gosto cítrico de tomate que carrego.
Continua beijando.
E fala comigo daí.
Murmura
Fala daí.
perdido entre as coxas onde naufragas.
Beija meus lábios
lembrando o gosto que tem minha comida.
E pensa como é quando estás com fome.
E cospe bem
cospe bem no prato que tu come.
domingo, 21 de setembro de 2008
Consenso

Serás sempre aquela que sobra.
Caríssimo
Acúmulo

História para não dormir
prostituta desde que alguém morreu.
com um homem com idade para ser meu pai.
Ocupação
À Deriva
sábado, 13 de setembro de 2008
Copyright © By Silvia Mara
2008
composta por poesias e artes gráficas,
é protegida pela Lei de Direitos Autorais
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Último aviso

Qualquer coisa que explico sobre ti
me detesto.
Revirei tuas coisas.
Encontrei entradas e mais entradas
- tu não tem saída!
Acendi uma vela por ti.
Estou particularmente feliz.
O filme que passa
conta a história
de um poeta assassinado
morto duas vezes.
Uma parece que foi suicídio.
É 20 de março.
Queria nascer de novo.
Perdi o que estava dizendo...
Nada se resolve por decreto.
Desiste da Marina.
Ela nunca vai te amar.
- tu não tem saída.
Acho que estou me repetindo.
Acho que eu também não tenho...
Vou mandar a tua mãe às favas.
E nada de dedicatórias à Carolina.
Chega.
Prefiro te ver num filme pornô
a ler tuas cartas de amor.
Já disse
Nau
pelo pescoço pendurado.
Canoa furada
afundada
fantasticamente infundada.
Meu tesouro
À Deus

sobre o que eu era.
No rabisco
árvores de copas carregadinhas.
Meu sol não era só
vinha acompanhado pela obviedade
de duas delas.
Freqüentemente vou pro balanço
mas equilibro...
Que prazer brincar com o ar
mesmo sabendo que ali descendo
nos obrigam a usar sapatos.
Mas já não basta estar pisando no chão?
Agora ando descalça o tempo todo.
Mas se eu subir
agora
a esta altura
sempre haverá alguém
dizendo não pode.
A janta está pronta.
As crianças correm...
Então entendo.
para que abandonem o balanço...
Por isso não largo as cordas.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
INAPTA

Promovo uma escrita armada.
Aliada atriz incapaz de simular.
Só policio o que intenta a caneta.
Filha que casou com o pai.
Mãe do próprio marido.
Beijo oito focinhos por dia.
Quando em português pareço grego.
Há muito me abandonou o microfone.
Explode todos os dias um amigo.
Adversos encaminham os proclames.
O plantão mora lá em casa.
Abro a porta e encerro.
É madrugada que me acorda pra passear.
Não pretendo nome de rua.
Ando só de boca em boca.
Sempre que furiosa sou lúcida.
Quando sensata pareço louca.
sábado, 6 de setembro de 2008
Parada
Tapete Vermelho
Depois de contar até vinte...

Voltei e lá estava...
o parapeito baixo da janela
a jardineira embaixo da janela.
E embaixo da janela
eu.
Olhava admirada a altura do prédios
e é claro
o porto.
Os prédios cresceram ainda mais
enquanto o cais permaneceu ali
no mesmo lugar
esperando que eu voltasse.
Cheguei nesta tarde e nada mudou.
Meus olhos descascaram
e as paredes choravam o mês de julho.
Depois de vinte anos
passaram um a um os anos.
Imaginava antigamente como seria
se a janela decidisse cair comigo.
Tudo teria acabado bem antes dos vinte anos passarem.
Mas os vinte anos passaram
e estamos eu e a janela de volta
uma diante da outra.
Depois de vinte anos
ainda vivendo o mesmo dilema.
Virada

São os plátanos que iniciam o ano.
São suas gentis folhas que iniciam tudo.
Ali começa a colheita festiva dos próximos dias.
Piso sobre seus tapetes durante meses
decorando um outono permanente.
A luz empresta ao ano
a possibilidade de sair trajado em terracota.
Nada de fogos
nenhuma barulheira
sem espumante
ou acidentes de trânsito.
O começo deveria ser mais solene.
Comemorar com explosões o fim
não o começo.
E se alguém que amo morrer no ano em que vibrei pela chegada?
Não me perdoaria.
Pensamento cinza

Cigarro
e mais cinza.
Derrubo o cinzeiro
Bebo cinzano
Chega...
A máquina emperrou.
Saudades de Maria Joaquina
e de seus pêssegos.
Sonho ser autor um dia.
Desta tatuagem me arrependo.
Converti em letras minhas ânsias.
A folha surpreende letras.
Insetos investigam a lamparina.
Apago a luz.
Lá se vão letras...
Continua esquisofrênica esta noite
que me confunde com outra.
Atenta
Nós trágico

Árvore frondosa de sobrenome simples.
Herdo toda a insatisfação tua vó
trocada por uma gaiteira.
Na página seguinte – Linda de morrer...
a primeira esposa de meu pai.
Só não mais bela que minha mãe.
Lindas primas.
Quem diria...
dariam no que deram.
Cheio de vida
o tio suicida casa
com a mulher que nunca amara.
Prefiro álbuns de figurinha.
Lá pelas tantas
apareço...
bem mais honesta.
Saudades de uma irmã que ria de verdade.
... um incesto
algumas mães solteiras...
A cada virar
tragédias sexuais.
O que não suporto é a pose
no papel pra bonito.
Gênia lógica
que revela escondendo.
Depois de ti...

Minha preocupação é com as horas,
precisamente com os próximos vinte anos.
Estarei lá, bela, quase cinqüentona.
Mas e tu?
Chegarás aos oitenta?
Mais que a fraqueza das unhas, a reposição de hormônio,
a perda natural do meu vigor...
me preocupo com a tua vitalidade.
Continuarei com cabelo comprido pra disfarçar e,
certamente,
até lá,
uma prótese atenuará crises de depressão.
Já não serei tão vistosa...
Mas e tu?
Terás o mesmo ímpeto para levantar da cama?
Serás vigoroso fazendo amor?
Serás impetuoso ao levantar?
Ou já não levantarás mais?
Ou já não mais?
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Hoje muda

Bons tempos de paralisação.
Bons tempos
em que existia razão pra tudo.
Que bom estudar lá...
Já no tempo em que era só por dizer:
- Estudo no Julinho.
Protestos.
A Brigada desobstruia ouvidos
e o trânsito ensurdecia.
Sirene
Caos na Ipiranga.
Hoje tudo mudou.
Quem diria...
pra sempre a manifestante
Herança

Um irmão pra lá de consumista
o outro um tanto negligente.
Uma mana metida a samaritana.
Um primo de amores impossíveis.
A língua que carrega uma tia afiada.
Como é difícil conviver
com a baixo-estima da mãe
com a confusão do tio
com o autoritarismo do pai
com a infantilidade da caçula.
Gritos
trejeitos
tiques e taques
desta gente
que ninguém suporta dentro de mim.
Reféns
(...)
como as avós de verdade.
Mas seqüestraram minha bondade.
mas não fui.
Não sou.
além do papel.
Neste conto de fadas
as crianças envenenam a madrasta.
Zig-Zag

Queria apertar um botão
e deixar a casa nua.
Mas não cessa a vontade de usar todas as peças.
Quando sinto passar frio alguma janela
costuro qualquer falta que as cortinas me possam fazer.
Tapo furos. Aceito novas encomendas.
Por isso quando me rasga
te retalho.
Fazemos pequenos reparos.
Compramos um novo tapete.
Mas voltamos a tropeçar na bainha.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Não se trata disso

Já sou quase uma senhora Balzaquiana.
Ainda ontem
Saudades da professora de geografia!
Varro folhas secas que caíram do vizinho.
Amo um homem velho e teimoso como meu pai
Sorrio com esforço todas as manhãs.
Se for feliz terei chegado com atraso.
Não caminho porque o medo paralisa.
Adio todos os dias minha partida.
Não consigo publicar minha insatisfação.
Rasgo papéis
e a vida - alheia a tudo isso.
Cria
Ausente
Aparte
Lá pelas tantas...

Desisti.
Em direção contrária as setas
abraço o nada.
Levo paisagem.
Acabam-se as curvas.
Começo a cumprir
o ritual da grande reta.
Dizem que não se chega
a lugar nenhum.
Penso voltar.
E sem convicção
Não agraciem a lápide
com uma inscrição bonita.
Prefiro a poeira nas ruas...
Não haverão vestígios de minha existência
só a notícia da tragédia em páginas de jornal.