Entre sem se perder...

domingo, 27 de novembro de 2016

Nunca fui flor...

A insônia cantará
lindas canções de ninar.
Não pregue olhos.
Não pague contas.
Pendure as chuteiras.
Pendure-se.
Não conte ovelhas.
Enumere remorsos.
Arraste-se...
Sente-se à beira da vida.
Joelhos sem fôlego.
Discurso mudo.
Silêncio balbuciante.
Sem pulso
Morto-vivo.
O sino tocará
para acompanhar
teu lento suicídio.
Tens escolha:

Sonâmbulo ou dopado?

Tranca

Há uma chama
lampejo de ideia.
Há o sino da igreja.
Cintila na calada
teu espectro falido.
Faísca uma memória.
Teu caixão aberto.
A inadmissibilidade.
Nasce a morte.
Surge o gosto
pela escuridão.
E o catre te abraça.
O colchão aprisiona.
A ansiedade brinca de
"tenha calma".
Dança a depressão
das horas arrastadas.
Faça planos...

E serão destruídos.

Antes da Hora

Photo by Tom Dinarte 

(...) Vestida de noiva daria azar...

Então, sempre me apresentei nua.

Bonequinha de Luxo

Imagem - Bonecas de Marina Byckkova



Nem bibelô,
nem enfeite.
Nem boneca inflável.
Nem a noiva de cima.
Sou o bolo.
Inabilidade com porcelana?
Liga pra secretária eletrônica.
Procura uma cópia minha
em Rivera...
Desiste do Uruguay...
Teu lugar é o Paraguay.
As mais delicadas
são as mais articuladas.
Habituado com marionetes?
Há fios tecidos pelo invisível.
Aqui o brinquedo fala
sem que se aperte botão.
O sequestro das meias
era pra rebelião de fantoches?
Mágica é para ilusionista.
É teu o teatro de sombras.
Quem gosta de charadas
não brinca bem de casinha.
Gosta de palco,
porque precisa de plateia.
Meu robozinho,
te dei muita corda...
Corda para subir.
Enrolado nos meus cachos
tu ascenderia...
mas com toda a corda,
tu te enforcaste.


Rainha

Imagem - Bonecas de Byckkova


Beija meus pés,
lembrando de outra.
Cobre meu corpo,
pretendendo outro útero.
Escreve pra todas,
simulando que sou una.
Tatua a própria pele,
pra apagar da mente.
Sou a última das nobres,
e a melancolia me impede de rir...
daquele que ao pretender ser rei,
nunca passou de um bobo da corte.

Dublê de corpo

Escreves para que eu não leia.
Leio para que escrevas.
Os homens são como
"satanás sorridente sentado".
Dou-lhes duchas de gelo.
Veja o buquê de flores.
Olhe rosas brancas.
Branco leitoso cristal.
Não me aperte assim.
Não aumente a voz.
E por favor, cale.
Não prometa.
Não me terceirize.
Não derrame o nosso leite.
Há coisas que precisam
de um copo bem cheio.
Não me amas escondido.
Há plateia te aplaudindo.
Enquanto te sobra desejo.

Só preciso de amor.

Cortejo


Hoje, subitamente,

Talvez por distração...

Deixei uma das alças

da tua esquife cair.


(...) sinto muito.

Da parte de quem?

Alô. É domingo?
Não. Hoje é feriado.
Mas está chovendo.
Hoje faz sol. Estou vendo.
E se a ligação demorar
pode custar caro...
Logo me farei noite.
E goteja poesia.
Escorrem
versos úmidos
de inundar guardanapos...
Confessas o inconfesso,
sem que eu queira saber.
Enxuga meus olhos,
navego nos teus.
Assim, me perco
no teu olhar marejado
e verdoso.
Não sentiu meu gosto.
Jantarás meus lábios.
Amanhã
te apresento Deus.
Ele é mulher.
Meu lado negro
te deseja morto.
Saberá quem és.
Se azul é a cor mais quente.
Vermelho pode ser a mais fria.
Continue ligado,
porque não é engano.
Só me traz palavras.
Embrulhadas como eu.
Serei a mais feliz de todas.
Ensinar é
extremamente erótico.
Comprometa a razão

e cometa emoção.

Carpideiras

Como não tem pressa?
Deu tempo do cabelo crescer.
Deu tempo de pegar piolho.
Deu tempo de ter câncer.
Deu tempo de raspar.
Deu tempo de nascer de novo.
Deu tempo de ter outra queda.
Deu tempo de cortar.
Deu tempo de trocar de cor.
Deu tempo de usar a última tendência.
Deu tempo de fazer o último penteado.
Deu tempo de virar resto.
Deu tempo de colocar dentro da caixa.
Deu tempo de pagar pra que chorassem.
Corre...
Dá tempo de saber o número da lápide.

Ampulheta

Somos um pouco de tudo
ou um muito de nada?
O que importa...
é que não importa.
E nada te impede.
Não vem de carro...
Vem de patinete.
Deixa de ser infantil.
Só quero apostar
todas as minhas conchas
numa tarde no Cassino.
Afinal,
não passamos
de um projeto de peixe.
Preciso de castelos na areia.
Vem morar comigo?
À beira mar é o teu lugar.
Meu silêncio
é obediência.
Entrei pra dentro.
Ouvi o toque de recolher.
A areia é o tempo
que se encontra
com a sua metade.
Deixo o amor
em todas as coisas.
Para um dia

deixar tudo por amor.

Senão, me perco...

Ah, seu moço...
Obrigada por ficar.
Por dividir a dor.

Por pretender os lençóis.
Ah, seu moço...
Espera o tempo...
Não sei quanto dele.
Se é horário novo,
dá pra voltar mais cedo.
Mas espera...
Ah, moço velho...
Eis uma velha moça...
Acende a luz pra mim.
Esqueci de pagar a conta.
O escuro tem medo de mim.
Estou no canto da sala.
... atrás do sofá.
... junto com a sujeira. 
Debaixo do tapete.

Estou atrás...
atrás de mim mesma.

Prometeu


Não é o fim...
Mas tudo faz sentido.
Extraterrestres não amam.
Entendo agora de abdução.
Agora a ilusão me entende.
Mágica não é magia.
Foste descoberto, bem antes.
Desmascarado, bem antes.
Mentiras mal contadas.
Entendo o que achas
que não entendo.
Versões diferentes
sobre si mesmo.
Eu vivo em outro planeta.
Tu, ator - ao melhor estilo
canastrão.
Mago - ao melhor estilo
charlatão.
Continue acorrentado
a beira do próprio precipício.
Pra dormir Rivotril.
Acordar Fluoxetina
Tome banho de cafeína.

Não tire o elmo.
Use mesmo essas lentes.
Dá pra ver tudo no olho.
Sorrio por pura teimosia.
O que fazes
fala mais alto
do que dizes.
Fique onde está

Porque não como carne.

Tu mentiu pra ti

Alimento o gatinho.
Brinco de pega-pega.
Choro pelos cantos
de um planeta redondo.
Leio cartas
que não fazem sentido.
Dou a volta na quadra.
Canso como se tivesse
dado a volta ao mundo.
Por que tu não chega?
Perguntar não ofende.
Pode não ter sentido
mas estou sentindo.
Sento na calçada.
A brisa me diz pra
não esquecer o casaco.
... me ponho de pé
pra não seguir rastejando.
Não dou bola pra letra de música.
Não conheço poetas honestos.

Cansei de me depilar...

Já pro castigo...

De novo falando de amor?
De novo brincando com coisa perigosa?
Mas eu não te falei?

Vamos, já é hora!
Vamos...
Não me obriga a ir até aí...
Vamos...
Sai daí de cima!
Já é tarde.
Vamos...
Se eu falar de novo???????
Vamos...
Limpa a bagunça que tu fez!
Vamos...
Mas será o Benedito???????
Vamos...
Se eu tiver que ir até aí??????
Não vai prestar!
Tá, chega!
(...) me dá a mão.
Vamos, me dá a mão?
Eu carrego a cruz!
Entra pra dentro...
Agora fica aí...
Ressuscita.

Pensa bem no que tu fez...
Ah... e não foi teu pai quem te salvou.

Causa mortis


Não houve remissão.
Só relatos de recidiva.
O tempo escorre.
Inunda o bloco.
É a hemorragia dos minutos.
Os segundos jorram dos vasos.
Não há fator plaquetário.
Arritmia
Parada.
Choque.
Parada.
Cianose.
Nenhuma manobra.
Sem ressuscitação.
Sem reflexo.
Depressão profunda.
Estágio IV.
Midríase agônica.
Bem-vinda morte.
Fora do corpo.
Monitoro o monitor...
pra ter certeza.
Alodinia mata.
Na lápide
nada de letra de médico.
Escrevam apenas:
- Sempre fui legível.
Eu morta - hígida.

Tu vivo - co-morbidades.

Procura-se

Photo by Sarah Regis


Há sujeira no canto da página.
Há páginas que não viram.
Há escuridão nos dias.
Há ausência das horas.
Há abandono não calculado.
Há um pedido de castidade.
Há impossibilidade de levantar.
Há um artefato de lâmina.
Há debris sanguíneos.
Há apego ao detalhe.
Há um porém, uma vírgula.
Há um vazio que cerca.
Há imensidão na falta.
Há silêncio que soterra.
Há tortura em toda a memória.
Perdendo-se,

se procura.

Amem

Oração aos Animais
(Pela voz de seus protetores na terra)

Permita Senhor,
que Francisco
se presentifique
nesta seara de luz.
Permita Senhor,
que as minhas mãos
de médico de animais
sejam guiadas
e que do meu coração
irradie a humildade
necessária para que eu seja
apenas instrumento.
Que sendo medianeiro,
eu me compadeça sempre
do sofrimento e da dor
de qualquer espécie
e lute pela vida,
como se fosse a minha.
Que sendo teu
verdadeiro filho,
eu jamais me porte
como um especista.
Que os animais,
sendo sencientes
e parte da grande obra
sejam tratados
por mim
e por todos,
ao meu entorno,
condignamente.
Permita Senhor,
que o animal humilhado,
receba das mãos
dos homens,
água, comida,
abrigo e amor.
Permita Senhor,
através de teus sinais
que nenhum interesse
possa ser superior
ao bem-estar de um animal.
Ó Mestre
Que o mundo um dia
possa dar mais valor
ao amor manifesto
do que aos juramentos acadêmicos.
Permita Senhor,
que eu não me desvie.
Que eu não faça
da minha vocação
um balcão de negócios.
Permita Senhor,
que eu não banalize
a morte de um animal
tampouco naturalize
sua escravidão
ou condutas desumanas.
Senhor,
fazei de mim um instrumento
não só da medicina,
mas do direito dos animais.
Permita Senhor,
que todos os veterinários
um dia,
possam entoar esta oração.
Senhor,
conduz a natureza humana
para o entendimento
de que somos todos iguais.
Pai,
protege neste instante
e nesta hora sagrada
os animais que estão sendo
usufruídos e espoliados,
de qualquer forma.
Perdoa Senhor,
o nosso atraso
e as injúrias que produzimos
contra a tua portentosa obra.
Perdoa Senhor,
o não entendimento do teu
maior mandamento:
“Não matarás!”
Senhor,
meu deus,
Fazei de mim,
médico de animais,
o grande propagador
do verdadeiro significado de
amem!


Amém

Setembro Amarelo

Queriam que ele fosse Agosto.
Depois virasse Outubro.
Ele só queria ser ele mesmo.
Com seus 30 dias.
Com seu equinócio.
E decidiu não virar.
Havia um enigma
que fez o ano
parar no meio.
Estacionou o inverno.
E as únicas flores
abriram no cemitério.
Maledicentes...
Línguas espalharam
que amarelou.
Havia nele uma solidão.
Dias que viraram
interrogações.
Havia a vontade
de não permitir
mais nascimentos.
Havia a vontade
de cortejar a morte -
à vontade.
Podia ter sido ajudado.
Qualquer outro mês
podia ter-lhe
emprestado sentido.
Mas nenhum deles
queria abrir mão
de seu lugar no folhetim.
Ninguém perdeu tempo.
Cada um que cuide de si!
Quando Setembro se foi...
Todos se deram
conta que faziam parte do

mesmo calendário.