Entre sem se perder...

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Em nome de deus



Senhor,
ensina-me,
esvazia-me,
despe-me...
Como escritura,
apresento-lhe as páginas
que o aguardam.
Senhor,
não há o que ser dito,
deves apenas avançar.
Não há mistério maior
do que confessamos.
Não há ciência,
doutrina,
filosofia
ou arte capaz de aplacar
a rebentação do amor.
Não há sacristia,
confessionário,
catedral...
nenhuma vida monástica,
iniciática...
Nenhuma teoria
pode ser maior
do que aquilo que nos espera.
O amor
é isso que me ensinas,
não penetrar,
para manter-se dentro.
Senhor,
sou daquelas
que podem engravidar,
sem nunca ter sido tocada.
Sagra-me, Senhor,
santifica-me como tua.
Vênus,
meu Senhor,
se escreve
com outra inicial.
A maior de todas as retidões
é adentrar-me.
Não há verdade
que separe duas metades.
Não se pode manejar um esquadro,
sem o auxílio de um compasso.
Para abrir o coração
ninguém precisa
nem de graus
e nem de ângulos.
Amar é a própria lei, Senhor.

Na hora da prova





Na sala dos ossos,
rompem-se as suturas.
Crânios se esfacelam.
Em partes, podem ter razão.
Incisuras perdem seus pares.
A bula está atenta ao que pode ouvir.
Pro último beijo,
os incisivos se aproximam.
O palatino não sente nada.
Desmineralizado,
o fim aponta a sua última morada.
Os carpos ousam darem-se as mãos.
A sínfese mantém unidas
duas metades, de uma mesma verdade pélvica.
Nasal e lacrimal se emocionam.
Quem precisa negociar a vida,
deve ser apresentado à morte.
O atlas sente o peso;
com o áxis, a responsabilidade
de carregar o mundo nas vértebras.
De repente a tróclea muda de capítulo
e os côndilos do occipital perdem a cabeça.
Numa vista lateral,
vê-se um fêmur solteiro,
acomodando a sua cabeça
na fossa do acetábulo,
que lhe consola.
A asa do ílio repousa.
Os ísquios se sentam, perplexos.
O calcâneo teima e bate o pé,
desejando ser o que um dia fora.
Ninguém foge da ciranda,
que ontem, tirou todos para dançar,
igualou o homem a qualquer animal.
Os ossos sentem saudades da carne.
Não há como articular muita coisa.
Sorrimos sem dentes nossas desculpas.
Diante dos restos,
a cervical se curva.
Para um maléolo, basta um tropeço.
A escápula vai escapando.
O úmero austero, não permite.
O rádio e a ulna fazem reverência
à velha sincera, dona do cemitério
- Senhora das Catacumbas.
A mandíbula,
mancomunada com a maxila
solta um riso terrível.
Vê-se no canto as caudais
balançarem, o que
um dia fora rabo.
É festa de finados.
Patelas ao chão,
é hora de rezar.
Nada resta no seu eixo.
A falange das almas
se diverte.
Senhor Caveira sorri,
aguardando a todos,
para o encontro de amanhã.

Totipotente




Prepotente
 é como te chama todo aquele
 que não consegue te manipular.

Lusíadas o que tu tens



O ar da manhã,
visitou a tarde.
Para amar...
a razão foi embora.
Queria te chamar meu,
mas apropriação indébita.
Duvidas de mim,
porque desconfias de ti.
Talvez escreva uma epopéia,
quando encontrar o caminho.
O número de ouro,
batidas descompensadas,
ouvidas pelo plexo perplexo.
A proporção áurea,
olhar, sem dizer,
apenas sentir.
Aprisionas o verbo,
e sofre de dislexia crônica.
Continuo língua solta,
escrita livre.
Triunfes
sobre o teu próprio medo!
Caravelas ao mar!
Todo saber requer
sobriedade ao se portar...
Vá além do Cabo das Tormentas,
transforme o gigante em esperança.
Senhor Camões,
abra o olho que nunca fecha.
No meu mundo
não há lugar
para oitavas decassílabas perfeitas.
E também não há como negar
- Temos sido portugueses.


domingo, 23 de março de 2014

No dia em que te amarei pra sempre



Hoje,
o lado que ainda te pertence,
acordou florido.
Hoje,
ainda não nos separamos.
Onde estou,
folhas secas,
um prenúncio
de inverno longo.
Neste mês,
não paro de chover.
Precisei casar.
Que tu entendas.
Omites o teu rosto,
porque sabes que eu sei.
Não acredito em sorriso,
rede social.
Precisas voltar...
e isso requer
que curves a cabeça.
Precisas vir pro meu trópico.
Sai do continente.
Mergulha no atol tropical,
no verde musgo
que condena minha íris.
Vem lembrar
o sabor das minhas palavras.
Vem colher morangos com nata.
Preciso encontrar Atlântida.
Vem me emprestar fôlego.
Nunca estive tão amarela.
Vem que te mostro o outro lado do jardim.
Nestas coordenadas geográficas
se localiza o meu inabitável.
Admita,
em alguns mundos,
simplesmente não há gravidade.
O problema é que só eu sei.
Misto de generosidade e egoísmo.
Só eu posso dar.
Precisas voltar
porque sou a dona da bússola,
a que dirige sem freios.
Aquela que sabe o que queres,
e nem sabes que queres.
Há coisas horríveis a meu respeito,
que só eu sei.
Deixa eu dizer...
Celebra o equinócio dentro de mim.
Faz esse existir valer a pena.
Vem encontrar sentido no que escrevo.
O outono há anos já havia predito:
Todos os vinte e uns de março
eu te recordarei,
e tu jamais me esquecerás.

Transbordando



O arrastão sonha
seus próprios tesouros.
Amores blues
em cânticos de sereia.
A metade peixe de toda a mulher
frequenta o vapor do fogo.
Nossa outra parte
toma banho de vento
em noites cheias e eternas.
Quebra onda e paradigma.
Do mar de dentro,
rebentação.
Somos nós,
cavalgando nossa própria solidão.
Inventamos mitos e contos
lindos de acordar.
O tempo é o desperdício de inventar
a melhor mentira pra que se acredite.
Se meus olhos te veem,
secam minhas escamas.
Passamos a temer tsunamis.
Em gotas,
te oceano mais uma vez.
Trocamos águas passadas,
mágoas e confidências.
O mar até leva,
aquilo que não se pode dar conta.
Como ostra
me embalo pra presente.
De grão em grão
vou transformando tudo
neste aperolado modo de sobreviver.
Sigo afeita ao pranto mais belo.
Ao invés de fazer amor,
inundo o teu barco,
na esperança de que
tu afundes comigo.
Salve o sal da tua saliva!
Oferendam-se breves alegrias,
à ondinas e nereidas
que te cercam
quando te banhas em mim.
Não há nada nesta fábula de existir
que lembre tristeza ou depressão.
Vivo parecendo uma afogada,
porque o canto de qualquer Iara
é puro choro e lamento.