Entre sem se perder...

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Dedo na ferida


Não podia engravidar de ti
como minha mãe.
Mas te dei um filho
que quero que crie.
A criança não podia ser mais bonita
mais formosa
mais parecida contigo.
Pai me ajuda a criar nosso filho juntos.
Pai este filho é teu...
Meu marido só
só serviu pra que eu te desse um filho.
Tens obrigação comigo...
Assumiste todos os filhos
menos o meu?
Quer dizer que serei a única mãe solteira?
Vai me abandonar grávida?
Pai
como assim não podemos?
Podemos sim.
Sem que ninguém saiba.
Podemos sempre
às escondidas
muito bem disfarçados.
Ah, não?
Então quero que tu pague as fraldas.
Quero que tu pague a escolinha.
Quero que tu pague o carro.
E pague por minha mãe.
Quero que tu pague o diabo
que te farei amassar o pão.


Quero apenas que tu pague.

Participação de casamento


09 de agosto
um ano qualquer
Porto Alegre:
Sol e chuva casaram
Eu
sem cerimônia
até hoje
participo.



Nas horas vagas
sou boa menina...
O problema é que vivo ocupada!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Crescemos ao perceber
que nunca passaremos de crianças.


Tende piedade de nós!



Cordero de Deus...
A Suprema Corte não dorme
redige.
A Suprema Corte não come

A Suprema Corte compara
alhos com bugalhos.
Eruditos proclamam
a inauguração de suas interpretações particulares.
E o mofo vai cobrindo Têmis
que ao lado chora por desuso
e passa a temer a todos.

Cordero de Deus...
Lágrimas não prescrevem.
Dor é qualquer coisa irrenunciável.
Hediondo é sempre trágico.
Não me obriguem...
Não me obriguem chover no molhado.
Como ficam as almas que reivindicam um corpo?
Famílias assoam injustiças
em um tapete grande, vermelho latino.


Conveniência – teu nome é Direito
!

Sem título para não comprometer

Continua beijando.
Sente o gosto cítrico de tomate que carrego.
Continua beijando.
E fala comigo daí.
Murmura
porque ecoa.
Fala daí.
Escutas o barulho do molhado
perdido entre as coxas onde naufragas.
Beija meus lábios
lembrando o gosto que tem minha comida.
E pensa como é quando estás com fome.
E cospe bem
cospe bem no prato que tu come.

domingo, 21 de setembro de 2008

Consenso


Chegaste aqui sem identidade.
Tu és um nome
que se apropria indebitamente de sobrenomes.
E serás sempre fadada aos restos.
Serás sempre estepe
pneu de estepe.
Aplaudem os meus segredos
enquanto o teu público cai na privada.
Estou dando descarga.
Não sofres de nenhuma doença
são elas que sofrem de ti.
E jamais poderás sequer me fazer sombra.
Te embebedarás em lágrimas
com alto teor alcoólico
e fumarás teus dedos
e envelhecerás todos os dias
mais e mais
e por dentro.
E serás tão ou mais estéril
do que sempre foste.
E não haverá o que fazer.
E te preocuparás
com a relevante cerca do vizinho
depois com as pulgas do vizinho.
E a mulher do mesmo que se cuide!
Serás sempre aquela que sobra.


És aquela coitada
cuja única coisa que minha felicidade pode sentir
é pena.

Caríssimo

A pior morte nos obriga a sepultar vivos.
Mais penosa que missa de sétimo dia
será o passeio ao supermercado.
Pior que percorrer inscrições nas lápides
será o terror dos corredores vazios
entre uma gôndola e outra.
Fantasma é o que assombra
fazendo questão de não aparecer.
Honestamente...
você vai preferir que tivesse morrido.
Você vai desejar que estivesse tão podre
quanto o abacate que te fazem pagar caro por ele.

Acúmulo


Minha vó parou de passar
e ficou acumulada de roupas.
Ela passava só a chorar.
A mãe de meu pai
passava a chorar.
E as lágrimas engomavam toda a razão.
E quanto mais passava mais chorava...
Minha vó perdeu meu tio no meio do vapor.
Nunca mais o achou.
E procurava e procurava.
O tio que eu mais gostava.
Meu tio único.
O tio que entre vários era sempre o único.
E todos nós passamos...
Para ajudar passamos a não vê-lo.
Todos mudaram daquele dia em diante.
Meu pai inaugurou os seus olhos
e minha vó passava a chorar.
Daquele dia
em diante tudo foi ferro.
Daquele dia em diante
o útero começou a morrer.
Até que um dia minha vó parou de passar!

História para não dormir

Ele da fronteira oeste
encontrou minha mãe na serra.
Sou neta de analfabeta
como diria o presidente -
desde que nasceu.
Outra avó
prostituta desde que alguém morreu.
Sou mãe de pelo menos uma menina
que desejo ter
com um homem com idade para ser meu pai.
(...) não quero que ninguém mais saiba desta história
ela é só nossa!