Ah, menino... atravessa a rua.
Volta menino.
Não vai longe.
Ah, menino...
Pra que cicatriz no rosto?
Pequeno, teu nariz inaugurou a mesa...
para a emoção de chamar a atenção.
Sempre foste assim, menino.
Não é de hoje...
Teu ciúmes vem de berço.
Só devolvi tua emoção.
Te mandei pra paixão.
Agora, és refém de ti mesmo.
Ah, menino...
Não precisa fazer amor
com as primas para ter emoção.
Não precisa brigar
com outros meninos.
Paramos de brincar de casinha...
e brincamos de pega-pega...
Se queres ser bandido...
posso ser mocinha.
Não precisa embarques no aeroporto.
Não queres meninos, menino...
Não gosta que mexam nos teus brinquedos?
Um centauro não pode estar preso.
Mas teu cavalo anda em círculos?
Comes manteiga.
Não acredita em comercial de margarina...
Ganhaste irmãos?
Todo o amor pode ser dividido.
Ganhaste uma filha?
Todo o amor pode ser dividido.
Ganhaste um sócio?
Todo o amor pode ser dividido.
Ninguém precisa trair para ter emoção.
Não precisa charadas para ter emoção.
Foste pego mentindo, menino.
Apenas te repreendi.
Não abandona a escola, menino.
Ganhaste animais?
Todo o amor pode ser dividido.
Ganhaste amigos?
Todo o amor pode ser dividido.
Ganhaste um ex-marido?
Todo o amor pode ser dividido.
Ganhaste um palácio
para que tu brincasse de ser rei.
Preciso ir, menino.
Vou deixar a luz acesa...
Deus mora no travesseiro...
Dormirás de novo no meu útero.
Como o melhor sonho que sonhaste...
Atravessa a rua, menino...
Olha pros lados...
Não vai ser atropelado?
Não mexe no interruptor.
Deixa a luz acesa.
Não briga com deus, menino.
Não precisa palco para ter emoção, menino...
volta para a tua única plateia.
Depois disso tudo
a morte é a única emoção que resta.
Se cruzares,
não te alcanço nunca mais.
A morte é a própria bipolaridade.
Não deixe que te abduzam.
Até o verdadeiro amor,
adoece de depressão.
Sentir emoção
é uma maneira perigosa de viver...
Não se brinca com comida.
O amor é a tua fome.
Toda a ilusão existe menino,
basta que pra isso,
acreditemos nela todos os dias.
Assino, eu...
assassina tu.
domingo, 10 de julho de 2016
Carrossel
sábado, 9 de julho de 2016
E se?
E se...
a noite tivesse me deixado?
E se...
o tapete fosse vermelho?
E se...
eu não tivesse acordado?
E se...
o mal tivesse me penetrado?
E se...
houvesse um filho no ventre?
E se...
ao atravessar a rua?
E se...
alguém vier me consolar?
Não se deixa ninguém assim...
Nem prostituta
deixamos sem pagar...
E se eu nos matar?
Não se deixa ninguém assim...
Que lindo...
deixar todo mundo!
Que lindo...
abandonar criança!
E se...
é só desculpa?
Eu não deixo ninguém...
Nem mendigo,
nem cachorro,
nem velho...
E eu não deixo deus,
por isso deus não me deixa.
Partida
Quando festa acaba...
Quando cadeiras pra cima...
Quando doença se instala...
Quando terra arrasada...
Quando unidade neonatal interdita...
Quando buffet revirado...
Quando porta fecha...
Quando esperança cai de moda...
Quando resta nada...
Quando última convidada se retira...
Quando salão vazio...
Quando poeira grossa... chego.
Daí, eu chego.
Sou sempre a última...
quando lacrado... chego...
Chego com pé de cabra...
Vou embaixo do tapete,
faxino.
Quando mais nada...
nem bebida, nem comida...
Daí, eu chego...
Quando lixeiras cheias...
Daí, eu chego...
Dou uma organizada...
Faço voluntariado...
violo domicílio...
comemoro solidão...
me meto...
onde não chamada...
e parto para o único
parto possível...
Volta, volta bailarina...
Ah, menina...
Há razão de ser pra tudo.
Há uma caixinha aguardando você.
Há quem cultue teus calos, bailarina.
Se chegares por aqui choverão sapatilhas, bailarina.
Há alguém que toca
apenas para que ouças.
Silencia, menina.
Ouve a engrenagem.
Abre a caixinha vermelha.
Ela torna a interrogação uma clave.
Se doer, haverá quem te console.
Ah, pequena bailarina...
a vida é feita de muitos bailes.
Na vida,
se debuta todos os dias, bailarina...
Na noite mais fria,
só haverá um homem
para te acompanhar,
enquanto teus pés se afogam.
Só haverá um homem,
meu amor,
pra te amar...
E ele te amará pra sempre...
ainda que feito de brinquedo.
Ele é maior que o brilho de qualquer anel.
De uma bailarina,
a vida cobrará postura.
Não permita tua coroa
posta de pernas pro ar.
Solitária entre várias,
tu te sentirás bailarina.
Dança, dança, dançarina...
Dança o tempo que passa...
Segue teus próprios passos,
bailarina...
Dança teu próprio destino...
Aprenderás que saltar é
tão importante quanto cair...
Exausta...
só haverá um lugar pra que descanse...
e quando tu perderes a corda,
docemente – ele – te acorda.
E tu volta, volta.
Vocês...
Escrevo pra todos...
Queria dizer
o que devo dizer
a cada um...
Então, me calo...
E no silêncio,
presto atenção ao resumo,
a história mais bem escrita.
Nunca soube como alguém
podia ser metade...
Olho sempre descrente...
E caminho
com medo de acordar.
Por isso, falo tão baixo.
Mas é como se gritasse.
Queria dizer algo,
mas é como se
não houvesse palavra.
É como se devesse
haver outra língua.
É uma impossibilidade.
Dizer te amo,
não supre.
A eternidade,
toda hora invade.
Queria dizer
que ganhei na loteria...
mas não.
Queria dizer
que tive sorte...
mas não.
Tenho medo de acordar.
Então falo baixo, bem baixo...
Assim, continuo acreditando...
Queria falar com cada um deles
e me desculpar...
por não ter sido essa
que sou pra ti...
Então,
(...) cada vez que te olho,
peço perdão,
a cada um de vocês,
que habitam um único.
Obrigada por ter nascido.
Canção para que eu morra
De ti espero
vírgulas....
rascunhos passados à limpo,
o teu singular pluralismo,
a troca súbita de idioma.
Algumas reticências?
De ti espero
um novo verso gestado,
o teu último estado de melancolia,
o meu desespero,
supondo o que não existe.
De ti espero,
só de ti espero...
a palavra não dita... o impronunciável.
De ti aguardo paredes escritas,
que tu componhas a última música.
Eu aguardo na entrelinha...
o que a vida escreve por linhas tortas.
Ali reside a minha certeza...
que já acordou ao lado da tua dúvida.
Eu aguardo
com que nota tu inicias um assunto.
Nos teus braços,
não só há sede de viver...
me faz bem abraçar a morte.
De ti espero
um inusitado cotidiano,
a exclamação que termina em ponto final!
Meu amor,
feliz ano velho.
Saudades...
De brincar de casinha...
De conhecer o centro da América.
De esconder todos os teus botões.
Saudades...
Do jogo de bilhar
que acabaria empate.
Da toalha que deveria
ter te feito cair.
Da noite em que
tu erraste de quarto.
Da viagem
que deveria ter cancelado.
Do teu namoro desfeito.
Do anel que podia arrancar
o meu dedo.
Sinto saudades das saudades
que esqueci de sentir...
Sinto que esqueci também...
Algumas solitárias saudades
que precisei morrer...
Nostálgica...
Da falta do teu nome nos papéis.
Do tempo que perdi escrevendo
pra quem não sabia ler...
Desta coisa toda que não volta...
Do meu hábito em descer...
Da tua habilidade em fazer subir.
Sinto...
Ter dormido madrugada adentro
em noites que eram para ser rito...
Onde a única coisa íntima
era eu - sentindo - tua falta.
No mar do amor sem fim
Era nascida da espuma do mar de Afrodite.
Deveria nadar no sêmen de Urano.
Mas a banhava com copos d´água.
Ressecava sua alma.
Subia aos céus a sua pele.
Deveria nadar no sêmen de Urano.
Mas a banhava com copos d´água.
Ressecava sua alma.
Subia aos céus a sua pele.
Ficavam evidentes suas escamas.
Agora no colo
o mar a visita por dentro.
Somente o grande Netuno
respeitaria um tritão velho.
Então ela se curva
e nada contra a corrente.
Quem gosta de regiões abissais
precisa ser entregue a uma sereia.
Só elas são capazes
de resgatar os filhos da profundidade.
São poucas, são raras.
Quando se cultua pés,
não se pode desconhecer Aquiles.
Nadadeiras vão mais longe.
Oferece o oceano
e em retribuição
apenas amo.
Das coisas extraordinárias
conta deus ter feito
um centauro se apaixonar
por uma mulher-peixe.
Pra que ele pudesse amá-la
deveria sempre se ajoelhar.
Do amor dos dois...
nasceu um cavalo marinho,
ensinando aos machos
o quão delicados
podem ser.
podem ser.
(S)em cerimônia
A lua desceu.
Flores foram colhidas.
Não estávamos à rigor.
Foi ali que...
Sim.
Foi ali que...
Tu também.
Não lembro o dia.
Não sei o mês.
Não assinamos.
Ninguém assistiu.
Foi sem testemunha.
A lua chegou
um pouco mais perto.
Foi migrando de minguante para...
Engravidando na nossa frente.
Tudo era midríase.
Algo aconteceu ali...
Não lembro a que horas.
Não recordo quanto tempo.
A lua virou apicultora
Na rua
o amor virou sem saída.
Senti medo.
Tu também.
Um velho desconhecido
nos encontrou.
Não sei mesmo
em que noite.
Até porque se repete
toda a noite...
Ainda que a lua se atrase
pra colher o mel.
Maio, 15
Quero se Laura
Como uma viagem sem retorno.
Queria ser ela.
Pra te arrancar um sorriso.
Queria ser Laura.
Pra que tu...
irremediavelmente feliz.
Eu queria...
Eu queria ser Laura...
Com toda a sua aura
Eu queria...
ser a menina dos teus olhos.
Eu queria ser Laura...
Apenas pra que tu
acordasse pai.
Apenas pra que tu
esta manhã...
Eu queria ter olhos de sorrir.
Queria ser Laura.
E o mundo era perfeito.
Se houvesse uma flor
que abrigasse o perfume dela
eu me faria essência...
Queria ser Laura
pra que tu...
se encontrasse contigo.
Como sou afeita
a certos mistérios...
poderia fazer surgir uma Lara...
mas ainda assim,
uma única letra...
faria diferença pelo resto da vida.
Assinar:
Postagens (Atom)









