Entre sem se perder...

sábado, 9 de julho de 2016

No mar do amor sem fim




Era nascida da espuma do mar de Afrodite.
Deveria nadar no sêmen de Urano.
Mas a banhava com copos d´água.
Ressecava sua alma.
Subia aos céus a sua pele.
Ficavam evidentes suas escamas.
Agora no colo
o mar a visita por dentro.
Somente o grande Netuno 
respeitaria um tritão velho.
Então ela se curva
e nada contra a corrente.
Quem gosta de regiões abissais
precisa ser entregue a uma sereia.
Só elas são capazes
de resgatar os filhos da profundidade.
São poucas, são raras.
Quando se cultua pés,
não se pode desconhecer Aquiles.
Nadadeiras vão mais longe.
Oferece o oceano
e em retribuição
apenas amo.
Das coisas extraordinárias 
conta deus ter feito
um centauro se apaixonar 
por uma mulher-peixe.
Pra que ele pudesse amá-la
deveria sempre se ajoelhar.
Do amor dos dois...
nasceu um cavalo marinho,
ensinando aos machos
o quão delicados
podem ser.

(S)em cerimônia


A lua desceu.
Flores foram colhidas.
Não estávamos à rigor.
Foi ali que...
Sim.
Foi ali que... 
Tu também.
Não lembro o dia.
Não sei o mês.
Não assinamos.
Ninguém assistiu.
Foi sem testemunha.
A lua chegou
um pouco mais perto.
Foi migrando de minguante para...
Engravidando na nossa frente.
Tudo era midríase.
Algo aconteceu ali...
Não lembro a que horas.
Não recordo quanto tempo.
A lua virou apicultora
Na rua
o amor virou sem saída.
Senti medo.
Tu também.
Um velho desconhecido 
nos encontrou.
Não sei mesmo
em que noite.
Até porque se repete 
toda a noite...
Ainda que a lua se atrase
pra colher o mel.



Maio, 15


.

Quero se Laura
Como uma viagem sem retorno.
Queria ser ela.
Pra te arrancar um sorriso.
Queria ser Laura.
Pra que tu...
irremediavelmente feliz.
Eu queria...
Eu queria ser Laura...
Com toda a sua aura
Eu queria...
ser a menina dos teus olhos.
Eu queria ser Laura...
Apenas pra que tu
acordasse pai.
Apenas pra que tu
esta manhã...
Eu queria ter olhos de sorrir.
Queria ser Laura.
E o mundo era perfeito.
Se houvesse uma flor
que abrigasse o perfume dela
eu me faria essência...
Queria ser Laura
pra que tu...
se encontrasse contigo.
Como sou afeita
a certos mistérios...
poderia fazer surgir uma Lara...
mas ainda assim,
uma única letra...
faria diferença pelo resto da vida.

O Príncipe de Vidro



Histórias frágeis
trincam qualquer coisa.
Rompe fora.
É quebra adentro.
O imperador reina
 atrás da vidraça.
 Aguarda pedra,
 aguenta perda.
 Ama transparência.
 Há uma inflexibilidade 
no que é translúcido.
Átomos se divorciam. 
O amor junta pedaços. 
Quem arrasta o ato... 
resta caco.
O regente reúne-se 
com seus estilhaços. 
A menor partícula
 faz sangrar. 
Imagens de vidro 
precisam de base. 
O equilíbrio do cálice
 é a haste. 
O sonho do cristal 
é suportar grito. 
Pra isso...
 alguns nascem temperados.
 O ar 
é o que mantém o fogo.
 Até a chama respira.
 Volte a sílica. 
Nasce da tua 
menor unidade.
 De grão em grão... 
há outros pontos de fusão.
Vem pra onde a terra
 encontra o tapete do mar.
 Cansado de conter... 
serás contido. 
Nada em ti se degrada. 
Quem governa 
precisa ser reciclável. 
No fundo, 
bem no fundo... 
é só decidir... 
se preferes ser sólido 
ou duro. 

Bailam as máscaras


Toda a música
Todo o canto sem nota.
silêncio.
Na mente 
o vazio.Toda a dança 
imobilidade. 
Todo o policiamento 
abandono. 
Todo o histrionismo 
timidez. 
Toda a roupa 
nudez. 
És o único autorizado 
- por lei - 


a me despir.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Amor à milésima vista


A década escorreu pelos dez dedos
das mãos que já eram tuas.
Perdão, mas...
A obviedade não perfaz o mistério.
Celebramos casamentos necessários,
funerais previsíveis.
À primeira vista nos enganamos,
e a segunda e a terceira...
Talvez tenhas olhado demais os meus pés
e visto pouco os meus olhos?
Não fomos honestos conosco,
mas também não fomos sinceros
com os outros...
Frente à frente
nos assustamos
com a própria imagem refletida.
Fugimos de nós mesmos.
Consagramos a ilusão,
o encontro sempre vestido para sair.
À deriva, nunca importa a direção.
Naufragamos em nossas próprias dúvidas...
As interrogações borraram o mapa,
cansaram a bússola.
Não se questiona
uma exclamação no peito
e um ponto final para o alento das pernas.
Mil vezes precisei te ver,
me ver, mil vezes, tu precisaste.
As cortinas se fecham...
O universo se recolhe
da odisseia que foi
nos fazer reconhecer.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Cigana


O vento que te aplaude
é minha brisa que insiste.
Só ao mar é permitido
brincar de ir e vir.
O cio de todas as fêmeas nos dá licença
pra que eu seja tua única crença.
Sou o encontro,
no entrecruzamento do ponto.
Chego quando nada basta.
Danço só quando me inundas.
Afino tuas cordas com as do universo.
Sou o fogo permanente.
Sou tua ideia recorrente.
Na barra da minha saia
nasce o teu jardim...
Ao afastar a relva
encontrarás tua única saída.
Percorre todas as linhas
te acidenta em todas as curvas.
Só aqueles que não dormem
sabem o que é sonhar.
O verbo é quem propaga o destino
 sem vontade de mudar.

Sandrarosa é o amor
que  insiste me desposar.

Enquanto esperava...
Nadei contra a maré,
Andei de marcha ré,
Perdi um tanto a fé,
Pensei em dar no pé,
E até...
Agora, diante de ti,
Tudo o que não era,
é...