Entre sem se perder...

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Santificado seja o vosso nome




Duas colunas
edificam o vosso prenome.
Como lhe chamam
já é mistério por si só.
Vosso corpo circuncisado
é díade sagrada,
é a disposição em paralelos,
é a reconciliação dos paradoxos.
Tudo é duplo, Senhor.
Não estranhe vossa natureza.
Tudo tem dois polos.
Quando nascestes, Senhor...
algo apontava para o Oriente.
Aguardava-o,
mulher egípcia, que sou.
As letras que restam,
são tijolos,
o templo de vossa alma.
Deves cumprir a promessa.
Torne-se arqueiro.
Temos história para encenar.
Marcada pelo retorno.
Sei que posso regurgitar.
Devolvo o fruto à árvore.
Basta que me tome em seus braços.
Basta que caminhemos juntos.
Ter filhos é desejar...
é vestir-se de Maquiavel,
é inebriar-se com Narciso.
Voltemos pro reino, Senhor.
Porém, se o acaso nos brindar,
separados,
daria nome ao amor,
chamando-o de astrolábio.
Estando juntos,
um filho nosso,
teria qualquer nome,
desde que pronunciado
na língua do filho de deus.


Esperando Godot




Senhor meu deus, apareça.
Não que eu duvide...
Sinto saudades, Senhor.
O Senhor, deveria surgir.
Do nada, deveria aparecer.
Esta é uma oração, Senhor.
Sei seu nome impronunciável.
Não consigo ser humana.
Isso tem me pesado.
Nasci sobrenatural, Senhor.
Sei coisas que ninguém sabe.
Nasci acompanhada, Senhor.
Fizeste-me um equívoco.
Por que a força que me deste?
Não consigo administrar.
Muitos são os caminhos, sei.
Eu incorporo, Senhor.
Isso não é normal.
Não sei fazer como desejam.
Por que me condenaste?
Senhor, isso atrai Senhor...
Liberte-me...
Penso que já cumpri a pena.
Espere.
Não faça isso.
A esquizofrenia me pertence.
É orgânica.
Nasci para amar, Senhor.
Apenas para existir.
Que a próxima, seja a última.
Misericórdia, Senhor.
Apenas apareça,
e declare-se meu Senhor,
Senhor.

Lua vermelha





Em apneia nos beijamos.
Arfarás descendo o delta.
Fale a boca com silêncio.
Somos células secretoras.
Prisioneiros em visita íntima.
Escreve tudo de novo.
Em mim, teu entalhe.
Tente vencer a sétima onda.
Apenas derrame lágrimas.
Abrem-se as cortinas do ceú.
Entenderás Ísis sem véu.
O eclipse desta noite inicia.
O sol apenas deseja cobrir a lua.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Em nome de deus



Senhor,
ensina-me,
esvazia-me,
despe-me...
Como escritura,
apresento-lhe as páginas
que o aguardam.
Senhor,
não há o que ser dito,
deves apenas avançar.
Não há mistério maior
do que confessamos.
Não há ciência,
doutrina,
filosofia
ou arte capaz de aplacar
a rebentação do amor.
Não há sacristia,
confessionário,
catedral...
nenhuma vida monástica,
iniciática...
Nenhuma teoria
pode ser maior
do que aquilo que nos espera.
O amor
é isso que me ensinas,
não penetrar,
para manter-se dentro.
Senhor,
sou daquelas
que podem engravidar,
sem nunca ter sido tocada.
Sagra-me, Senhor,
santifica-me como tua.
Vênus,
meu Senhor,
se escreve
com outra inicial.
A maior de todas as retidões
é adentrar-me.
Não há verdade
que separe duas metades.
Não se pode manejar um esquadro,
sem o auxílio de um compasso.
Para abrir o coração
ninguém precisa
nem de graus
e nem de ângulos.
Amar é a própria lei, Senhor.

Na hora da prova





Na sala dos ossos,
rompem-se as suturas.
Crânios se esfacelam.
Em partes, podem ter razão.
Incisuras perdem seus pares.
A bula está atenta ao que pode ouvir.
Pro último beijo,
os incisivos se aproximam.
O palatino não sente nada.
Desmineralizado,
o fim aponta a sua última morada.
Os carpos ousam darem-se as mãos.
A sínfese mantém unidas
duas metades, de uma mesma verdade pélvica.
Nasal e lacrimal se emocionam.
Quem precisa negociar a vida,
deve ser apresentado à morte.
O atlas sente o peso;
com o áxis, a responsabilidade
de carregar o mundo nas vértebras.
De repente a tróclea muda de capítulo
e os côndilos do occipital perdem a cabeça.
Numa vista lateral,
vê-se um fêmur solteiro,
acomodando a sua cabeça
na fossa do acetábulo,
que lhe consola.
A asa do ílio repousa.
Os ísquios se sentam, perplexos.
O calcâneo teima e bate o pé,
desejando ser o que um dia fora.
Ninguém foge da ciranda,
que ontem, tirou todos para dançar,
igualou o homem a qualquer animal.
Os ossos sentem saudades da carne.
Não há como articular muita coisa.
Sorrimos sem dentes nossas desculpas.
Diante dos restos,
a cervical se curva.
Para um maléolo, basta um tropeço.
A escápula vai escapando.
O úmero austero, não permite.
O rádio e a ulna fazem reverência
à velha sincera, dona do cemitério
- Senhora das Catacumbas.
A mandíbula,
mancomunada com a maxila
solta um riso terrível.
Vê-se no canto as caudais
balançarem, o que
um dia fora rabo.
É festa de finados.
Patelas ao chão,
é hora de rezar.
Nada resta no seu eixo.
A falange das almas
se diverte.
Senhor Caveira sorri,
aguardando a todos,
para o encontro de amanhã.