Entre sem se perder...

terça-feira, 4 de março de 2014

Romance Árabe


Caía a noite embriagada...

O horizonte sobre a linha

anotou por anos

o que ele notou

do que ela não disse.

Cintilava uma eloquência.

Misto de calma e manifestação.

Toda a verve, impaciência.

Blasfemou sobre a beleza

que ofendida passou a vagar...

Ofereceu camelos,

ela, tratado de Alquimia.

Recitou-lhe o Corão,

ela se dizia de Alexandria.

Ofertou-lhe um turbante,

ela se recusou a cobrir o terceiro olho,

que ele não enxergava.

Em segredo,

a levou pra tenda,

mas como poesia,

deveria ser lida em voz alta.

A beleza sempre ofende a Medina.

Deu-lhe água,

atravessava um deserto sozinha,

por isso vivia em tempestade.

Musa de sílica,

era o verdadeiro tesouro d' areia.

Quem diz que a ama,

é digno de oásis.

Pra prosseguir viagem,

deve-se crer em miragem.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Manifesto...

Não há como reconhecer a manifestação da deusa
 havendo a permanência do ego.
Caso você só enxergue a si mesmo,
 continuará vendo apenas seu próprio ego.
Assim, também ocorre com deus...
Quanto melhor você pensa que é,
menos deus se manifesta.

Derradeiro


Aparecerei diante dos teus olhos, 
vestida de branco - 
porque esta é minha cor original.
Neste dia, 
me tomarás em casamento,
 diante de todos!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Quando deus se cansa...

(À todo o povo de Santo - ontem, agora e sempre.)

O livro sagrado rasga suas páginas,
O esplendor abandona o altar,
A alta cúpula abre mão dela mesma,
A igreja se indispõe com as paredes,
O pedestal obriga a que Ele desça...
As imagens refutam a elas próprias,
O portentoso relicário se envergonha,
O altar nega todo o seu ouro,
A ritualística se enxerga enfadonha,
Quando cansa, está disposto a ser visto.
No sétimo dia, de fato, pára.
Vai pra terra da luz, 
e a sombra de uma samambaia,
Ele se achega...
te faz puxar um banquinho,
e como qualquer mortal,
te convida à pitar um cachimbo.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O Mistério da Câmara Nupcial

(O beijo 1908 Gustav Klimt - oleo sobre tela 153x133cm - Belvedere Viena)

Lave as escadarias.
Consagre o templo.
Descubra o triângulo.
Minúscula,
a geometria aponta os céus.
Será o grande sacramento.
É a segunda chave do reino.
Se o néctar te fizer cair,
me aguarda nos degraus.
O princípio é água e fogo.
Serás ungido em óleos,
purificado em mistérios.
Seremos uma só carne.
Tudo em nós é sacro.
Nosso deus é casto,
não celibatário.
O poder da criação
guarda certos segredos.
Vista-me de luz,
em teu sagrado abraço.
Em matrimônio perfeito,
voltemos pro antes..
Mergulha.
Águas bentas te batizam.
Nasce novamente.
O verdadeiro filho,
é filho do fogo sagrado.
Sendo uma,
a verdade é múltipla.
Em ti resplandecerá
o áureo florescer.
Abandona o animal
para embalar o espírito. 
Nossos sexos rezam,
enquanto triunfa no alto
 a serpente de fogo.
Empresto-te fios de ouro
e se te perderes,
sairás do labirinto,
sabendo meu nome.
Retire a poeira que paira
sobre o Evangelho de Felipe.
Retornemos ao eon.
O sopro capaz
de  acender o fogo,
também pode apagá-lo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Bem-aventurada

Vitral de Jesus com Maria Madalena grávida, na igreja católica de kilmore, Dervaig, na Escócia.


Ave, mulher, do triângulo d'água.
Cheia de graças sois, em sequência de acordes.
Bendita sois vós, inscrita no círculo arqueométrico.
A vossa proto-forma redunda numa capela.
Revelai-nos mãe, a antiga sociedade dos mistérios.
Apontai-nos o nome divino, porque o senhor é convosco.
Santa, que vós permitais os segredos dos arcanos.  
Doce e terna venerável,
 revelai-nos o Planisfério de Rama.
Santíssima, do alto dos saberes ancestrais,
reinais junto à magnífica confraria dos senhores da luz.
Bendito é o fruto do Alpha ao Ômega,
do Aleph ao Thau.
Vosso ventre é o próprio Graal.
Virgem, mãe, esposa, rogai por nós.
Sagrada é vossa linhagem, senhora.
Digníssima, permita-nos chegar em Anahata,
transmutais o chumbo em portentoso ouro verde.
Vós que sois divina, cósmica e planetária.
Vós que sois a mulher peixe da antiga Judeia. 
Vós que dissestes sim ao mensageiro.
Agora e na hora de nossa morte,
mostrai-nos que não importa quem somos,
mas quem precisamos nos tornar.
Imaculada, senhora revestida de sol.
Milagrosa em sua beleza infinita.
Inefável sois.
Vós sois o tempo, o templo
e a própria religião.
Oh, Maria de Nazareth!
Oh, Maria de Magdala!
Vós sois faces,
de uma mesma verdade.

Amem.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Afrodite se quiser

Venus (detail), by Henri Pierre Picou (1824-1895), French

Os longos fios hão de te percorrer.
Odores breves se acumularão.
Onde repousa um estreito brilho de sol, 
lá estará a indicação do caminho.
Siga as retas...
também as curvas.
Haverá vales e montanhas...
refúgios úmidos 
e uma relva baixa,
esplendorosamente dourada. 
Não se pode cultivar girassóis à noite.
Amanheça,
que te acordo.
A cada dia,
o amanhã é menos profano.
Estas madeixas desfilam 
a majestade que se disfarça de mulher.
Faz desta cortina vermelha,
teus lençóis.
Toda trama,
ricamente engendrada,
pode te afogar em mechas.
Condenado a gadeia.
Tira minhas salamandras para dançar
e procura ondinas nas cavidades.
Enrosca-te no labirinto
que cairá sobre o teu rosto.
Permita amor,
que os silfos te desmascarem de vez.   
Desacortina-me
sobre esta colcha terracota,
recamada por gnomos. 
Não á toa,
mantenho este capricho.
Então, 
despida de tudo,
na tua frente,
nunca parecerei, 
absolutamente nua, 
te iludindo sempre
quanto a descobrir
um novo mistério.
E tu curioso,
me possuis um milhão de vezes,
e a cada vez,
em tuas mãos,
me torno, 
cada vez mais casta. 

Mil e uma noites



Antes do Islã... 
numa outra Arábia.
Ali,
numa outra Arábia...
Ali...
Baba Ali, 
Baba o quanto puderes, ali.
É bem ali, Ali.
Inverte a pergunta
 para que saibas
quantos vocês são.
És tu,
tu contra quarenta ladrões.
Tu és o único sétimo.
Palavras mágicas
podem revelar
segredos de caverna.
Use o verbo,
antes que descubram,
antes que me apedrejem.
Dentro há um tesouro.
Se queres felicidade,
vá além de Bagdá.
Carregue junto ao peito,
incenso, mirra e ouro.
Siga a estrela.
Siga o pentagrama.
Não o inverta, jamais.
Quando a serpente
tiver cumprido a sua
peregrinação,
vértebra por vértebra, 
entenderás os signos. 
Entenderás a unidade do espírito santo.
Toda a noite,
 impura que pensas que sou,
te contarei histórias fantásticas,
que devem ser interrompidas,
até outro anoitecer.
Abre-te
como um sésamo se abre.
Se temes, 
me dá tua mão
que vos apresento à morte.
Ao meu lado, 
finalmente,
te consagro, meu senhor
- rei, sacerdote e profeta -
para que vivas,
eternamente.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Tentativa



Toma um espelho.
Obrigue-o a que te mire.
Ele dirá teu nome Narciso.
Faz teus pulsos cortarem
tua imagem despedaçada.
Se vives com medo da vida,
não temas a morte.
Aproveita o nó da garganta
e usa o da gravata.
Qualquer objeto é útil
para os criativos.
Quem precisa de apoteose, 
tenta uma overdose.
Continuas com medo?
Mas não estavas morto?
Vamos, coragem...
Salve a cômoda
que engoliu os calmantes.
Um a um, tome-os
e deite-se para nunca mais.
Quem não tem planos,
pode mudar de plano.
Ao som da mais linda canção,
perde a direção...
Se tua vida é um fracasso, 
faz da tua morte um sucesso.
Quando cruzares, 
saberás o quanto a lei pune.
Verás que até lá, 
estarei ao teu lado,
pagando por ter te induzido.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Yiami



Feche a boca,
abra os olhos.
São os mistérios que nos iniciam.
Pandora faz questão
de não guardar segredo.
Nem Joana d'Arc,
nem de Angelis.
Pensam que sou
Joana Carneiro,
Joana Cabrita.
Sou Joana Gota d'Água.
Em carne,
algumas são a própria
emanação dos ossos. 
Querem que pensemos que sabem,
o que no fundo,
querem ficar sabendo.
Então me vem a dizer,
que sou aquela,
que por ser trina,
é una. 
O Delta de Vênus foi queimado,
e nossa santidade
 não pode ser revelada.
O giro do mundo é redondo
e traz todos 
sempre para o mesmo lugar. 
Escreva nas paredes teu nome.
Aquele que só a mim
é concedido revelar.
Seja capaz de fazer ecoar na caverna
a ausência de qualquer derramamento.
Verterás em lágrimas...
Segure  o jarro o quanto puder
e mostre-se de outra estirpe. 
Não desça nenhuma escada.
Não fique tentado pelos atalhos.
Não ouse alimentar 
uma fome milenar
com migalhas.
O Santo Graal não é uma taça.
Abaixo do monte,
beberás vinho de outra pipa. 
Certas práticas,
requerem horas
de puro silêncio e oração.
Qualquer matriarca,
 sabe disso.