Entre sem se perder...

domingo, 21 de setembro de 2008

Acúmulo


Minha vó parou de passar
e ficou acumulada de roupas.
Ela passava só a chorar.
A mãe de meu pai
passava a chorar.
E as lágrimas engomavam toda a razão.
E quanto mais passava mais chorava...
Minha vó perdeu meu tio no meio do vapor.
Nunca mais o achou.
E procurava e procurava.
O tio que eu mais gostava.
Meu tio único.
O tio que entre vários era sempre o único.
E todos nós passamos...
Para ajudar passamos a não vê-lo.
Todos mudaram daquele dia em diante.
Meu pai inaugurou os seus olhos
e minha vó passava a chorar.
Daquele dia
em diante tudo foi ferro.
Daquele dia em diante
o útero começou a morrer.
Até que um dia minha vó parou de passar!

História para não dormir

Ele da fronteira oeste
encontrou minha mãe na serra.
Sou neta de analfabeta
como diria o presidente -
desde que nasceu.
Outra avó
prostituta desde que alguém morreu.
Sou mãe de pelo menos uma menina
que desejo ter
com um homem com idade para ser meu pai.
(...) não quero que ninguém mais saiba desta história
ela é só nossa!


Ocupação

Eras hóspede...
Vieste senhora
em minhas dependências
te abrigaste
Achei que em breve partirias
mas ficaste
Sem minha licença...
maldida dor
de mim
me desistalaste.


À Deriva

É meu ego no volante das coisas
Por isso nego
depois exorto...
te tenho horror
Ando no limite do suspiro
deste sopro
e sofro.
Mal acabada...
Venho de fábrica assim
- sem a menor garantia.

É Deus que tem que acreditar em mim
e não o contrário!

sábado, 13 de setembro de 2008

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Copyright © By Silvia Mara
2008
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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Último aviso


Queria poder não te amar.
Qualquer coisa que explico sobre ti
me detesto.
Revirei tuas coisas.
Encontrei entradas e mais entradas
- tu não tem saída!
Acendi uma vela por ti.
Estou particularmente feliz.
O filme que passa
conta a história
de um poeta assassinado
morto duas vezes.
Uma parece que foi suicídio.
É 20 de março.
Queria nascer de novo.
Perdi o que estava dizendo...
Nada se resolve por decreto.
Desiste da Marina.
Ela nunca vai te amar.
- tu não tem saída.
Acho que estou me repetindo.
Acho que eu também não tenho...
Vou mandar a tua mãe às favas.
E nada de dedicatórias à Carolina.
Chega.
Prefiro te ver num filme pornô
a ler tuas cartas de amor.
Já disse
chega!

Nau

Tem um esqueleto de homem
pelo pescoço pendurado.
Canoa furada
afundada
fantasticamente infundada.
Meu tesouro
meus mapas...
um destino em garrafa.
Inexplicavelmente passageira
lá gosto
lagarteio à luz da florescente.
Em meio ao nevoeiro
inexisto.
Só me permito o ilimitado
de meu aquário.







À Deus


O tema de casa se debruça
sobre o que eu era.
No rabisco
árvores de copas carregadinhas.
Meu sol não era só
vinha acompanhado pela obviedade
de duas delas.
Freqüentemente vou pro balanço
mas equilibro...
Que prazer brincar com o ar
mesmo sabendo que ali descendo
nos obrigam a usar sapatos.
Mas já não basta estar pisando no chão?
Agora ando descalça o tempo todo.
Mas se eu subir
agora
a esta altura
sempre haverá alguém
dizendo não pode.
A janta está pronta.
As crianças correm...
Então entendo.
Educamos todos
para que abandonem o balanço...
Por isso não largo as cordas.