Entre sem se perder...

domingo, 13 de agosto de 2017

A MELHOR IMAGEM


Fantasiei teu nome, 
tua bondade,
teu choro,
tuas verdades
(...) eu acreditei.
Nada mais ingênuo
que o amor verdadeiro...
E buscava um símbolo
que melhor representasse.
Mas como representar
o desintegrado?
Como representar
o que não existe?
Como representar 
uma farsa, um fake?
Como representar
um suicida?

DEVER


Talvez devesse ir até aí...
Talvez devesse sair do lugar...
Talvez devesse procurar...
Talvez devesse tantas coisas...
Suporto...
Suporto porque
me ocorre pensar
que talvez devesse (...)

SOLSTÍCIO DE INVERNO



Feche todas as janelas.
Está muito frio.
Quer que eu vá?
Fecho todas as janelas.
Fecho janelas
e abro persianas...
Persianas americanas.
Sei lidar com cremonas emperradas.
Feche as janelas.
A vida acontece do lado de fora.
Estou sem roupas,
é preciso que abra a porta...
Olha através do espelho.
Olhe pra si mesmo.
Olhe pra lua.
É quarto minguante.
Sente o vazio.
Abre a porta (...)
Estou morrendo,
e não é de frio.

AMOR METÁSTASE


Eu te queria assim...
crescendo, crescendo
e tomando parte de mim.

Agora, 
não respiro, não como,
nem me movo.

Nunca fui abraçada
por tantos braços...

Para qualquer um
o tratamento é tópico.
Pra mim utópico.

ONI


Deus passou o dia na Savana.
Estava com saudades do estábulo.

Deus limpou a lente do microscópio,
na mais recente descoberta científica.

Compareceu a última
declaração de guerra.

Aplaudiu de pé 
uma estreia no teatro.

Esteve presente ao um studio, 
acompanhar alguém 
que decidiu tatuar o demônio.

Encontrou o silêncio dos Lamas
no alto da montanha.

Comeu comida vegana 
e seguiu para um abatedouro.

Deus ouviu atentamente 
a versão do crente 
sobre ele mesmo.

Cansado,
tirou um cochilo, 
ao lado do mendigo,
de seu cachorro
e de todas as pulgas.

Rio muito com as piadas
que os ateus contaram
no final do Congresso.

Preciosista (...) 
acompanhou a geada no campo.

Aguardou uma gota de orvalho
que retornou para dentro do lago 
que lhe aguardava há anos.

Sentou e acompanhou 
uma ocultação de cadáver 
no meio da floresta.

Cruzou uma encruzilhada 
e cumprimentou um guardião
que estava de ronda.

Cortou o cordão umbilical 
do último humano
que acabou de nascer.

Empurrou um menino, 
que quebrou o pulso,
mas desviou da bala.

Segurou o choro, 
ao assistir o casal que se amava, 
fazendo amor...

Deus deu dois moshs
num show de Rock in Roll.

Acompanhou o momento
em que o esquizofrênico percebeu 
que estava sendo chamado.

Fez tudo,
tudo o que podia,
ao mesmo tempo... 
como em todos os dias.

PAGUE PARA ENTRAR


- Se não podes...
Deixa que eu pago.
- Se tens vontade...
Deixa que eu pago.
- Se não dá agora...
Deixa que eu pago.
- Se está difícil...
Deixa que eu pago.
- Se é importante...
Deixa que eu pago.
- Se não é possível...
Deixa que eu pago.

Agora (...)
Enquanto tu apaga. 
Deixa que eu pago.

COSTUMEIRA


A gente acostuma...
A gente acostuma...
a não ter ficado junto.
A gente acostuma...
a ter demorado tempo.
A gente acostuma...
a fazer de conta.
A gente acostuma...
a fugir da gente mesmo.
A gente acostuma...
com a própria doença.
A gente acostuma... 
a enganar a plateia.
A gente acostuma...
com a escuridão da gente.
A gente acostuma...
a não sair do lugar.
A gente acostuma...
a não pedir desculpas.
A gente acostuma...
a não acreditar.
A gente acostuma...
a achar que a vida é assim.
A gente acostuma...
a inventar a melhor versão.
A gente acostuma...
a tomar remédio
A gente acostuma...
a ter que levantar.
A gente acostuma...
a não ter propósito.
A gente acostuma...
com finais tristes.
A gente acostuma...
a viver separado.
A gente acostuma...
com a falta do outro.
A gente acostuma...
com a própria indiferença.
A gente acostuma...
a inventar teses fantásticas.
A gente acostuma...
com a própria vaidade.
A gente acostuma...
a viver o personagem.
A gente acostuma...
a se assassinar gradativamente
(...)
só por costume de ser vítima.

TODA TOCADA


Dedilha de novo!
Tenta que chegue aqui.
Tenta.
Quanto mais baixo,
mais ouço.
O silêncio, então (...)
Dedilha de novo!
Passa dedilhando...
Deixa eu te dar corda.
Numa hora
minha melodia te acorda...
Dedilha de novo!
Também dedilho
o único instrumento
que sei tocar.

E quanto mais baixo dedilho,
mais tu irás ouvir...
E assim, 
enquanto tu acordas devagar,
eu durmo rapidamente.

SNOW


Acabou 
a neve,
começou a chuva.

Quando acabou a neve...
iniciou a chuva...

Nos últimos dias
era uma neve fina.

Neve sem vontade de nevar.

Agora, chove torrencialmente.
Muitos olhos se inundam.
Chovem a falta
do pequeno floco de neve...

Cortinas estão fechadas
sentindo saudades.

O sofá perdeu o assento.

A porta resta desolada ao abrir-se.

Na Terra começou a chover
e choverá muito nos próximos dias.

Já no céu de todos os bichos (...)
Precipitam-se cristais de gelo.

E Assis, brinca com
um gatinho recém chegado,
todo feliz e nevado. 

Em 17 de junho de 2017, Snow morreu.

QUANDO ME EXPONHO


Mas, sempre tem um mas (...).