Entre sem se perder...

sábado, 27 de agosto de 2016

Silêncio


... mas não digo.
só há segredos.
O melhor da vida...
é inconfesso.
Nunca mais ouvirás.
Nunca mais.
Uma única palavra.
Nunca mais.
Restarás tagarela.
Fala pros amigos.
Conta ao psiquiatra.
Pede ajuda aos universitários.
Disputa o colo da mãe.
Chora em outro colo.
Grita pro mundo. 
Repete pra ti mesmo.
Ninguém acreditará.
Ninguém sabe que existo.
E até tu,
em breve esquecerás.

Sem Hora


Demora...
Perde tempo...
Ultrapassa...
Não passa.
Cala...
Não fala...
Deixa o dia virar.
Dia virá.
Depois me vira. 
Não fala...
Cala...
Não falha.
Deflora.
Em noite de demanda,
tu não comanda.
É só silêncio.
Sem hora.
Sem fim.
Sem hora
viro.
Viro...
Viro sem demora,
tua senhora.

Nascendo no serrado


No equinócio
me verás florescer... 
Todo o concreto 
será abstrato. 
Espera que chego. 
De repente, 
chego. 
Subiremos rampa... 
Subiremos graus, 
degraus. 
Dia 22, às 14:21h 
será primavera. 
Todos os horários 
serão de Brasília. 
Viverás o cio da terra... 
Não haverá 
umidade relativa. 
Espera que chego. 
De repente, 
chego. 
Chego pra mostrar 
onde fica o centro-oeste 
no meu corpo.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016



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domingo, 17 de julho de 2016

s.o.s.


Era cirúrgico...

Um rombo...

Emergência.

Perdia sangue.

Perdia tempo.

Perdia...

Caso de vida ou morte.

Incurável.

Então... o resgate...

Como mago

Operas a cura...

E mesmo longe

bastam palavras,

teus acordes...

pormenores poemas.

Cicatriza.

Toma minh'alma

como se tua fosse.

Costura minhas escamas.

Bastam bálsamos 

e unguentos sagrados.

Faz o melhor...

Promete que me busca.

3 dias

Só peço isso.
E por favor...
não almoça.
Não janta.
Come aí.
Resta dentro.
E te move pouco.
E prolonga.
Não fala de ti.
Não pede de mim.
Resta dentro.
E não te lava.
Reza,
porque sou altar.
Agradece,
porque farei o mesmo.
Chora,
mas não derrama...
Resta dentro.
Quando eu for
entenderás o sentido.
Eu vou,
mas tu,
resta dentro.

Oro Iná




Só hoje, eu queria

não te olhar torto.

Só hoje, eu queria 

que Obá me deixasse.

Só hoje, eu queria

deixar a feitiçaria...

Mas só hoje.

Só hoje, eu queria

não te seduzir.

Só hoje, eu queria

que Iansã me deixasse.

Só hoje, eu queria

deixar de ser guerreira.

Mas só hoje.

Só hoje, eu queria

sentir as dores do parto.

Só hoje, eu queria

que Oxum não me deixasse.

Só hoje, eu queria

meu corpo em ouro...

Mas só hoje...

porque ninguém engana 

a sua verdadeira natureza.



Kali Yê,

Egunitá!


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Encantadora de serpentes

Pintura de Roberto Ferri - Itália



Não é transtorno

é magnetismo...

É a dança do gestual...

gemo entre as sílabas...

E tremo e me mordo

e arfo e sibilo...

e me curvo.

Sou um rito.

E te olho querendo.

E efetivamente...

E torno a me morder

e insinuo.

Não se transtorne...

não é transtorno...

E vivo em torno

e giro e rodopio...

E te digo...

Nunca mergulhaste...

Respira na umidade

e te afogarás.

Então, conhecerás água.

Não haverá memória de mulher.

Estou chegando...

E quando eu chego, 

venta.

Não como com talheres...

E estou sempre com fome...

e sede.

Não me verás vestida...

porque nasci nua...

Carrego comigo o cio de todas.

A luxúria é onde habita

a minha extrema unção.

Basta juízo.

Que a terra trema.

Que o planalto vire planície.

Estou chegando...

e há tântra, tântra,

mas tântra coisa a dizer.

Monocromática

Este inverno

fez nevoeiro.

Não pude olhar 

pra mim...

Vejo cataratas

caio cascatas...

Ando perdida de ti.

Na fumaça 

dessas noites...

Insones são os sons,

ansiosas as estrelas.

Durmo nebulosa.

Amanheço esperando

que a serração baixe

e o sol rache...

vindo do olho...

Do centro,

do furacão

virá a redenção.

Olha-me



Ao me encontrar...

não me abraça.

Respira profundamente.


Que eu não te ofenda...

deixe que eu chore.

E não me toca...

Por favor, 

eu te peço,

não me toca.

Perdi a pele

num incêndio.

Tentando salvar,

quase morri.

Só diz que és tu.

Só diz que eu errei.

Só me ensina o certo.

Só diz que todos os poemas

eram pra mim...

Só diz que todas as músicas.

Só diz o que preciso ouvir.

E deixa chover...

Por horas

só me assisti.

Que tu me vejas...

sem proteção.

Essa sou eu.

A verdade reflete

toda a minha timidez.

Traga-me água doce.

Traga-me o quanto puderes...

e tenhas paciência

em me hidratar...

Como o beija-flor,

trata-me em conta-gotas.

Quando sentires que é a hora...

Olha-me,

e só me diz que és tu.