Entre sem se perder...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Poesia de Pedra


Pedro era uma espera.
Por Pedro esperei a vida toda.
Pedro deveria ter vindo.
Mas Pedro morreu.
Só eu sinto esta dor.
Prematuramente
Pedro morreu.
Pedro preferiu não vir.
Pedro preferiu
abrir os olhos bem antes.

Nulo


Vôa uma fina película de números sobre o asfalto.
Dá pra ver o riso honesto
do sem vergonha.
A cidade desfila o silêncio
de um dia de festa
sem acompanhamento.
Guarda-se na urna
restos secretos
de uma ética absolutamente mortal.
Há um entusiasmo desdentado em cada esquina.
É o carnaval dos porta-bandeiras.
É o dia sagrado dos demos.
As ruas se arrastam
cheias dos sujeiras
ouvindo-se o tempo todo
o barulho estridente
de quem confirma no verde
a desesperança.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Publique-se com data retroativa

Ontem ele lembrou
teu mau hálito
teu mau hábito
recordou surdo
teus gritos mudos
a celulite estérica
e os chiliques
travestidos de sensibilidade.
Lembrou o cinzeiro
que não aguentava teu gosto.
Ontem ele disse
de fato
com todas as letras
- nunca te amou!
Ontem o telefone fofoqueiro
falou pro alto-falante
sobre o teu desespero.
Falou dos teus chás bipolares
que dançam pela casa
ao patético som de sinetinha.
Ontem soube em detalhes
finalmente
num ritual de vergonha
das infindáveis cenas
do teu grotesco.
Ontem falou do teu peso
e da ineficiência de se lavar.
Ontem ele disse
o quanto era cômodo
o quanto era incômodo.
Ontem me disse
com quantas precisou deitar
quantas tentou amar...
Ontem me falou
dos tapas na cara
que as cartas te deram na mesa
das cenas
onde até a violência se deprimia.
Ontem me contou
do copo que te persegue
e da mania de perseguição.
Ontem seus nervos riam
pensando no banho provocativo
regando tua nudez deteriorada.
Ontem precisei acalmá-lo
o acalmei a noite toda.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Marionete


Pobre porcelana
não sabe o quanto ruim e triste
é a bonequinha.
Pobre branca porcelana
não sabe o que a bonequinha tem por dentro.
Pobre vestido
acoberta a maldade
entranhada na espuma.
E o que dizer
do infeliz sapatinho vermelho
que se calça de infantil
mas que deseja.
O que falar do verniz
obrigado a refletir toda a feiura
escondida num sorriso
de gengivas predominantes.
Até as crianças riem de ti
brinquedo em jogos de adulto.
Todos a tua volta riem
com esta franjinha
pretensa colegial.
Todos te repulsam
dona-da-razão.
Pobre órfã
se ilude
ter sido adotada.
Ninguém brincou de boneca contigo
bonequinha.
Que o guarda-roupa
guarde também tua solidão
e o fundo do baú
te salve do fundo do poço.
Boneca inflável
todos te vêem
bonequinha
que se vende
por bem pouco.
Estão te dando corda
bonequinha
te dão corda
diariamente...
Só pra te verem
cedo ou tarde
quebrar.

Rebelde


Por um fio
o vermelho percorre.
Sangüíneo
desalinhado.
Desgrenhado.
Ora ondulado
não é nada liso.
Abandonou o curto e grosso
pra ser longo.
Bem mais longo.
Por agüentar as pontas
ando até a raíz.
Bulbo oleoso
ponta dupla.
Corto na minguante
porque cresce
cresce este meu jeito
que não sai da cabeça.





quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Dedo na ferida


Não podia engravidar de ti
como minha mãe.
Mas te dei um filho
que quero que crie.
A criança não podia ser mais bonita
mais formosa
mais parecida contigo.
Pai me ajuda a criar nosso filho juntos.
Pai este filho é teu...
Meu marido só
só serviu pra que eu te desse um filho.
Tens obrigação comigo...
Assumiste todos os filhos
menos o meu?
Quer dizer que serei a única mãe solteira?
Vai me abandonar grávida?
Pai
como assim não podemos?
Podemos sim.
Sem que ninguém saiba.
Podemos sempre
às escondidas
muito bem disfarçados.
Ah, não?
Então quero que tu pague as fraldas.
Quero que tu pague a escolinha.
Quero que tu pague o carro.
E pague por minha mãe.
Quero que tu pague o diabo
que te farei amassar o pão.


Quero apenas que tu pague.

Participação de casamento


09 de agosto
um ano qualquer
Porto Alegre:
Sol e chuva casaram
Eu
sem cerimônia
até hoje
participo.



Nas horas vagas
sou boa menina...
O problema é que vivo ocupada!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Crescemos ao perceber
que nunca passaremos de crianças.


Tende piedade de nós!



Cordero de Deus...
A Suprema Corte não dorme
redige.
A Suprema Corte não come

A Suprema Corte compara
alhos com bugalhos.
Eruditos proclamam
a inauguração de suas interpretações particulares.
E o mofo vai cobrindo Têmis
que ao lado chora por desuso
e passa a temer a todos.

Cordero de Deus...
Lágrimas não prescrevem.
Dor é qualquer coisa irrenunciável.
Hediondo é sempre trágico.
Não me obriguem...
Não me obriguem chover no molhado.
Como ficam as almas que reivindicam um corpo?
Famílias assoam injustiças
em um tapete grande, vermelho latino.


Conveniência – teu nome é Direito
!