Entre sem se perder...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Imputabilidade

Nos dias em que acordo eu
meu quarto o sol inunda.
Convenço as pinceladas de Van Gogh
a mudarem a direção.
Planto girassóis a noite.
Borboletas douradas cerciam a liberdade 
de ir além do jardim das delícias. 
Semana passada
me despejaram do castelo de areia.
Moro numa casa descascada
no alto de uma nuvem.
Lá não há teto para sonhar
e todo o chão que piso
não é afeito a psicotécnicos.  

Lascívia

Sou este rosto em meio ao vermelho
afogado em repentes.
Sou pinceladas de batom displicentes
no teu colarinho.
Sou esta despreocupada.
Olhos grandes
cansados de comer no lugar da boca.
Sou este abandono calculado.
Sou tudo aquilo que desejares
pelo menos duas horas por dia
todos os dias
a cada dia.

sábado, 10 de julho de 2010

Primeira Pessoa do Plural



As procuradoras passaram a ser procuradas.
Entoamos cânticos de hematomas aos filhos.
Adotamos para que adotem nosso sofrimento.
Paramos o carro e mijamos no morador de rua
debaixo da marquise dos olhos de todos.
Grafitamos o muro das imoralidades
todas as noites.
Quem nunca saiu no tapa com a mina?
Quem nunca esquartejou a mina?
Quem nunca trancou sua Richthofen
em regime fechado e a impediu de atuar?
Tempos modernos
de se engravidar do especialista
em reprodução humana.
Twitamos o nosso assassinato
centenas de vezes.
Pelo orkut
estupramos uma amiga
com hora marcada
esses dias.
Botamos fogo no índio
pensando que ele era mendigo
pensando que éramos filhos de deputado federal.
Mandamos as crianças para a catequese
para que eretos as ensinem a ajoelhar.


Nós, só nós...
sozinhos
fizemos tudo isso.








sábado, 3 de julho de 2010

Mundo das Maravilhas

Jogava cricket
num dia de Alice
quando quase perdi a cabeça.
Sei muito bem Senhor Gato
que estou atrasada
mas quem deveria me interpelar
era o relógio...
ou seria o coelho?
Quem é você?

Porque eu sei quem sou!

E se for o Senhor Carrol...
saiba que não escreverá sozinho a minha história. 

Caminhar de Carolina



Caminhar de Carolina

Com o seu caminhar de coral
Carolina
percorre as colunas
da classe.

O coral de Carolina
colore a classe de cor,
torna Carol a menina.

E a lua, vendo aquela cor
coral nos pés de Carolina,
põe no colo da classe

sua cara corada de menina.

Cecilia contaria.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Batismo




Carrego comigo a carga de todas as fêmeas

a indigestão de todas as raças

o mal estar de todos os tempos.

Não deixo nada guardado.

São os segredos que me despejam

me expõe

me botam pra fora.

Não digiro nada direito.

E sofro ao pensar

que tudo está bem.

Prefiro a fome

porque a cegueira não mata.

Pensar que o mundo são só partículas

é morar na zona de conforto.

É preciso muita fé

pra ser materialista.



Este poema dedico ao ateu

que ontém

enterrei rezando.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Desnudando

Estamos Marias e Josés
mas não somos Josés
nem Marias.
Estamos
mas não somos.
Vestimos roupas emprestadas
roupas perecíveis.
Roupas que aguardam
serem guardadas
num luxuoso armário de madeira
também sem importância.
Aguardamos o dia solene
do abrir e fechar
sem chaves.
E pela passagem secreta
alguns descobrirão
o fundo do armário.
Alguns acenderão a luz
outros demorarão
a encontrar o interruptor.
Não choro por aqueles que perderam a roupagem.
Choro sempre pelos apegados demais
as próprias vestes.

domingo, 13 de junho de 2010