Entre sem se perder...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Os poemas constantes neste Blogger são de autoria da escritora Silvia Mara.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Noite Feliz


O Papai Noel não vai trazer o vovô de volta.
Pode pedir...
O Papai Noel costuma decepcionar muito as crianças.
Oh, pequenino!
(...)
te conforma com o carrinho que o bom velhinho te deixou.
Ora
o carrinho já envelheceu?
Não é mais do ano?
Sei...
o papai perdeu o emprego.
Não chore pobre criança.
Pede o quiseres pra vovó.
Pra ser amada ela te dará tudo
como faz com todos.
A propósito...
chegou a cartinha da mamãe
pedindo herança.
Isso o Papai Noel também não pode dar
mas vai ver o que pode fazer com o tabelião.
Pobre criança
inconformada com o seu presente.
Aproveita
aproveita e se despede da magia desta noite.
Amanhã todos inconformados
te convencerão que sou o homem do saco.
Não importa que tu não chore
tenho lágrimas suficientes pra nós dois!
Não adianta alguém tentar ensinar
aquilo que só a gente
pode aprender...

domingo, 12 de outubro de 2008

Sociedade anônima


Eleito o pai do ano
foi pego fazendo boca-de-urna.
Descobriu que parte dos eleitores
pertenciam a uma boca de fumo.
Indistintamente todos
perderam a boquinha.
Alguns nomes saíram da boca do sapo
outros flagrados na boca do lixo.
A ex primeira-dama é conhecida
por boca do inferno.
Só por isso sou desbocada.

Para saber mais sobre a escritora está disponibilizada na Web fotos e vídeos através do Orkut.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Crime e castigo


Quando inicia
fala aos meus pés...
se detêm em ouvir os dedos
que murmuram.
Ao calcanhar inconfessável
segredos vulneráveis.
Ensurdece os vizinhos.
(...)
Ocupa-se longamente
e permanece
permanece.
Morde meus lábios
todos os lábios.
Pequenos
médios
grandes...
me descobre
me cobre
me cobre.
Brinca de esconde-esconde
nas coxas emprestadas.
Sua
sua
sua.
Soa poesia pela boca
sua boca pelo corpo
seu corpo pelo meu.
Em par
somos ímpares.
E repete
repete...
Até exaurir os lençóis
manchar as paredes
enguiçar a janela
incendiar o abajur.
E chama
chama...
Faz suar o banheiro.
envergonha a fechadura
queima a comida.
Devora tudo o que sou.
Até que eu suplique
não posso.
Até que implore
chega.
Até que desmaie.
Acordamos
naquele horário
cientes do que fizemos.
Só nós dois sabendo
em que estado
abandonamos os corpos.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Poesia de Pedra


Pedro era uma espera.
Por Pedro esperei a vida toda.
Pedro deveria ter vindo.
Mas Pedro morreu.
Só eu sinto esta dor.
Prematuramente
Pedro morreu.
Pedro preferiu não vir.
Pedro preferiu
abrir os olhos bem antes.

Nulo


Vôa uma fina película de números sobre o asfalto.
Dá pra ver o riso honesto
do sem vergonha.
A cidade desfila o silêncio
de um dia de festa
sem acompanhamento.
Guarda-se na urna
restos secretos
de uma ética absolutamente mortal.
Há um entusiasmo desdentado em cada esquina.
É o carnaval dos porta-bandeiras.
É o dia sagrado dos demos.
As ruas se arrastam
cheias dos sujeiras
ouvindo-se o tempo todo
o barulho estridente
de quem confirma no verde
a desesperança.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Publique-se com data retroativa

Ontem ele lembrou
teu mau hálito
teu mau hábito
recordou surdo
teus gritos mudos
a celulite estérica
e os chiliques
travestidos de sensibilidade.
Lembrou o cinzeiro
que não aguentava teu gosto.
Ontem ele disse
de fato
com todas as letras
- nunca te amou!
Ontem o telefone fofoqueiro
falou pro alto-falante
sobre o teu desespero.
Falou dos teus chás bipolares
que dançam pela casa
ao patético som de sinetinha.
Ontem soube em detalhes
finalmente
num ritual de vergonha
das infindáveis cenas
do teu grotesco.
Ontem falou do teu peso
e da ineficiência de se lavar.
Ontem ele disse
o quanto era cômodo
o quanto era incômodo.
Ontem me disse
com quantas precisou deitar
quantas tentou amar...
Ontem me falou
dos tapas na cara
que as cartas te deram na mesa
das cenas
onde até a violência se deprimia.
Ontem me contou
do copo que te persegue
e da mania de perseguição.
Ontem seus nervos riam
pensando no banho provocativo
regando tua nudez deteriorada.
Ontem precisei acalmá-lo
o acalmei a noite toda.