Entre sem se perder...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Nau

Tem um esqueleto de homem
pelo pescoço pendurado.
Canoa furada
afundada
fantasticamente infundada.
Meu tesouro
meus mapas...
um destino em garrafa.
Inexplicavelmente passageira
lá gosto
lagarteio à luz da florescente.
Em meio ao nevoeiro
inexisto.
Só me permito o ilimitado
de meu aquário.







À Deus


O tema de casa se debruça
sobre o que eu era.
No rabisco
árvores de copas carregadinhas.
Meu sol não era só
vinha acompanhado pela obviedade
de duas delas.
Freqüentemente vou pro balanço
mas equilibro...
Que prazer brincar com o ar
mesmo sabendo que ali descendo
nos obrigam a usar sapatos.
Mas já não basta estar pisando no chão?
Agora ando descalça o tempo todo.
Mas se eu subir
agora
a esta altura
sempre haverá alguém
dizendo não pode.
A janta está pronta.
As crianças correm...
Então entendo.
Educamos todos
para que abandonem o balanço...
Por isso não largo as cordas.


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O poeta é

 aquele que toma emprestada a roupa velha do outro

 entra na festa ostentando traje novo

 sem ter sido convidado.

 


O que eu sou não vem 
e o sono também.

Devolução

No frágil papel

deixo o meu papel frágil

que a vida me deu

e a poesia nunca esqueceu.

INAPTA



Promovo uma escrita armada.
Aliada atriz incapaz de simular.
Só policio o que intenta a caneta.
Filha que casou com o pai.
Mãe do próprio marido.
Beijo oito focinhos por dia.
Quando em português pareço grego.
Há muito me abandonou o microfone.
Explode todos os dias um amigo.
Adversos encaminham os proclames.
O plantão mora lá em casa.
Abro a porta e encerro.
É madrugada que me acorda pra passear.
Não pretendo nome de rua.
Ando só de boca em boca.
Sempre que furiosa sou lúcida.
Quando sensata pareço louca.

sábado, 6 de setembro de 2008

Parada


Entrou mais alguém.

 Além de mim

 mais alguém

 e mais alguém

 e mais

 e mais...

 até não poder entrar ninguém.

 

 Nunca achei que teria tanto espaço. 

Tapete Vermelho

A tarde passou um filme de despedida.

Minha mãe dormia

cansada de ser mulher.

Chorei a sessão inteira

por me machucar sozinha.

Depois de contar até vinte...

Voltei e lá estava...

o parapeito baixo da janela

a jardineira embaixo da janela.

E embaixo da janela

eu.

Olhava admirada a altura do prédios

e é claro

 o porto.

Os prédios cresceram ainda mais

 enquanto o cais permaneceu ali

 no mesmo lugar

esperando que eu voltasse.

Cheguei nesta tarde e nada mudou.

Meus olhos descascaram

e as paredes choravam o mês de julho.

Depois de vinte anos

 passaram um a um os anos.

Imaginava antigamente como seria

se a janela decidisse cair comigo.

Tudo teria acabado bem antes dos vinte anos passarem.

Mas os vinte anos passaram

 e estamos eu e a janela de volta

uma diante da outra.

Depois de vinte anos

 ainda vivendo o mesmo dilema.

 

 

Virada


São os plátanos que iniciam o ano.

São suas gentis folhas que iniciam tudo.

Ali começa a colheita festiva dos próximos dias.

Piso sobre seus tapetes durante meses

 decorando um outono permanente.

A luz empresta ao ano

a possibilidade de sair trajado em terracota.

Nada de fogos

 nenhuma barulheira

 sem espumante

ou acidentes de trânsito.

 O começo deveria ser mais solene.

Comemorar com explosões o fim

 não o começo.

E se alguém que amo morrer no ano em que vibrei pela chegada?

Não me perdoaria.

A sobriedade dos plátanos prevêem tudo.